
Ricardo Gonçalves
Escreve dramas, tramas e comédias. Sua escrita em prosa com o intuito de entreter.
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CAPÍTULO 22 (08/04/2026)
Vitória ficou meramente intrigada, porém, procurou não dar grande importância, afinal, não tinha nada a ver com os assuntos da sua irmã mais nova dois anos.
Estava uma bela quarta-feira de sol. O tempo convidava a vitamina D, para quem podia e não teria de estar fechado entre quatro paredes a trabalhar. Foi o que Simone e Vivia fizeram, indo tomar uma bebida fresca antes do almoço, numa esplanada diante do Tejo, início do atlântico. Conversavam sem muito sentido de humor, dado o momento amargo que Simone atravessava. A amiga estava perplexa:
- Meu Deus Simone! E confias na Lurdes? Ela não é fiel como um cão, no caso, cadela, ao teu marido?
- Confio, afinal até hoje não me deu motivos.
- Vê bem! Como é que essa mulher foi ver o vosso beijo? Mas cuidado amiga, confia, desconfiando.
- Já conversámos, eu fui procurar o Pedro, mas não deu muito resultado. Vivia, sinceramente, não sei o que fazer.
- Amiga? Se é para não continuar, não darem continuidade a esse absurdo, o melhor mesmo é afastarem-se e pronto. E já pensaste numa viagem? Não querias tanto ir a Roma? Ou então vai uma semana a Madrid, gostas tanto.
- Vou pensar nisso… - E de repente, ela avista uma pessoa conhecida, alguém que já não viam há muito tempo. Essa pessoa chegava deslumbrante ao estabelecimento. – Espera aí Vivia…aquele, melhor, aquela não é a Shirley Maravilha? – Simone acenou com o braço para chamar a atenção da mulher, que sacou dos óculos de sol e deu uma gargalhada sonora, recordando:
- Mas não é o trio das amigas catatua, novamente reunido? Suas peruas! Como estão?
As três envolveram-se em abraços afetuosos e cheios de saudade. A mulher sentou-se na mesa com as amigas:
- Shirley, conta coisas! Como estás? Há tanto tempo que não nos víamos? Cuidava que ainda estavas em Nova York?
- Estava…regressei de vez a Portugal, Simone. Mas vocês estão belíssimas! Simone, estás um pão! Quais 50 anos? Trinta e poucos no máximo!
- Ah gentileza amiga! – Logo Vivia:
- Então…e já trataste da saúde toda, já está tudo resolvido? Olha que a legislação em Portugal vai mudar, essa coisa de qualquer um querer mudar de sexo terá os dias bem contados. – E gargalharam. Porém, Shirley foi perentória na resposta:
- Querida, já tenho mais de 50 anos! E o pinto continua aqui…ainda! - As outras ficaram de boca aberta. – Sim, não se espantem. Ainda estou para decidir, ele é tão bonitinho! As gargalhadas foram em alto e bom som. – Aliás, não me chame eu de origem, Lindolfo Pinto! Mas brincadeiras à parte, minhas caras, Portugal ainda é um país muito atrasado nesse campo e em tantos outros. Cada um deveria ser sempre dono e senhor do seu próprio corpo. É o peso da religião…dos falsos moralistas. Esses políticos de direita, querem leis novas para proibir a mudança de sexo, mas são os primeiros a procurar depois uma mulher Trans! Ficam loucos de curiosidade, não é verdade? Um brinde!
CAPÍTULO 21 (06/04/2026)
Simone pediu que a empregada fechasse a porta do quarto e a sós pediu silêncio acerca do que teria visto:
- Pela tua saúde, Lurdes! Não contes a ninguém o que viste e não é aquilo que estás a pensar, eu não sou nenhuma loba!
- Não sou paga para pensar nada e tão pouco para julgar a vida dos outros. A senhora pode ficar sossegada, nada tenho para contar, para os outros eu nada vi. O que vi, ficará apenas entre nós. Pode contar comigo, ora essa!
- Ai Lurdes. – E deram um abraço. – Estou tão aflita, a minha vida está virada do avesso. Estava a curar do ferimento do Pedro, quando movidos talvez por uma enorme atração, aquele beijo aconteceu. Mas nunca poderia ter acontecido, percebes?
- Mas aconteceu. Agora é encarar as coisas. Na vida surge-nos momentos que nos põem à prova, passamos por deslizes, aprendemos com os erros. Vocês devem conversar e arrumar esse beijo no fundo de uma gaveta. Acredito que a senhora não vai tirar o namorado à sua filha e tão pouco causar uma desgraça na família, impedindo o casamento da menina Camila. Logo ela, tão chegada ao matrimónio e às coisas tradicionais da família.
- Claro que não! Não posso querer a infelicidade dos meus filhos! Eu daria a minha vida por eles se preciso fosse, mesmo pela Camila, que sempre foi mais chegada ao pai e à família do pai e sempre pendeu muito menos para o meu lado. Não tem nada a ver com a Vitória, que somos bem mais cúmplices. Mas agradeço a tua compreensão Lurdes.
- Fique descansada, da minha boca não sairá nada.
Simone ficou mais tranquila, mas muito pensativa nas últimas palavras da empregada e no apreço pela família e pela tradição e os bons costumes, que muito seduzia a filha.
Augusta estava estupefata com a revelação do filho. Durante o jantar, o jovem médico contou tudo à mãe acerca do beijo na sogra e do dilema que agora atravessava:
- É uma loucura minha mãe, bem sei, mas não posso fazer nada agora, já aconteceu! E aquele beijo marcou a minha vida desde então.
- E acreditas que tens alguma dúvida em relação aos teus sentimentos pela Camila? Não a amas o suficiente para prosseguirem com o casamento?
- Tenho muitas dúvidas…gosto dela, sinto-me atraído, é divertida e muito bonita. Se calhar será melhor adiar o casório e aceitar aquela proposta dos médicos sem fronteiras e ficar ausente por algum tempo. Tenho de evitar ver a Simone…
- Acho que é uma decisão sensata, filho. Não faças sofrer nenhuma delas, mas principalmente, não sofras tu. Eu acredito no homem que criei, sei que irás tomar as melhores decisões. – E abraçaram-se. – Para o que precisares, estou aqui. – Garantiu.
Mais tarde, antes de dormir, Vitória sem querer, escutou um pouco da conversa que a irmã estava a ter ao telefone, na cozinha, onde foi para estar mais à vontade:
- Sim…ele está diferente. Tenho de agir…preciso de me envolver mais…Qual quê! Isso não vai acontecer, o Pedro jamais desistirá do casamento. – Pouco depois a irmã fez barulho ao entrar e rapidamente Camila desligou, disfarçando. Sorriu e foi dormir.
CAPÍTULO 20 (02/04/2026)
Os dois falaram ao mesmo tempo, interpelando-se, querendo saber se estava tudo bem. Sorriram. O médico adiantou-se:
- Passou-se alguma coisa?
- Nada de grave Pedro. Mas acho que teríamos algo para conversar, olhos nos olhos, depois daquela tarde…não foi correto, nunca deveria ter acontecido.
- Mas aconteceu. E foi um beijo marcante e não consigo tirar do pensamento aquele momento. – Admitiu o jovem, fazendo a futura sogra tremer. Simone desviou-se e olhou tudo em redor, elogiando o espaço:
- Belo apartamento. A minha filha disse que virá viver para cá após o casamento. O pai queria dar-vos uma casa, mas realmente com este espaço aqui e no centro da cidade!
- Que importa isso Simone? De que vale tudo isso se não me sai do pensamento? – E segurou-lhe firme nas mãos. – Eu já não sei o que fazer. É um sacrifício encarar a Camila e não lhe poder contar a verdade.
- Que verdade, Pedro?
- A verdade, Simone. O que é que eu faço com este sentimento? Eu não a consigo arrancar aqui de dentro desde o dia em que a vi… - Simone não teve coragem de ouvir mais nada e saiu a correr, deixando o jovem médico confuso e triste.
Na saída do prédio cruzou-se com Augusta. Que perguntou se passava bem. A resposta foi rápida e vaga. Assim que entrou em casa:
- O que se passou, filho? Magoaste a senhora? Discutiram?
- Sei lá, mãe…acho que ela não entendeu nada do que eu disse. Na verdade, estou meio confuso e já não sei se quero casar com a Camila.
- Como? Nem marcaram a data ainda…se calhar é mesmo melhor decidires já isso e não permitir que as coisas avancem. O que se passa meu menino?
- Oh mãe…estou confuso e com a cabeça exausta de tanto pensar e repensar. Eu não amo a Camila o suficiente para casar e queria ter dito isso à Simone…não consegui.
Augusta abraçou o filho, que necessitava de colo, de carinho. Depois tratou do jantar para lhe dar um pouco mais de cuidado. A antiga médica acabou por se aperceber que alguma coisa não estava a bater certo e que Simone tinha muito a ver com a decisão que o filho teimava em tomar.
Simone correu para casa e trancou-se no quarto. Mais tarde Lurdes levou-lhe um chá:
- Precisa de se acalmar e refletir. O mundo não acabou, tudo tem uma solução.
- Que dizes, Lurdes? Não sabes de nada…para mim parece que o mundo vai acabar!
- Sei muito sim…eu vi…aquele beijo, entre a senhora e o menino Pedro. – As duas olharam-se firme, por aquela revelação é que Simone não esperava mesmo nada.
(continua na próxima semana, Boa Páscoa!)
CAPÍTULO 19 (01/04/2026)
De facto, um pensava no outro após cada decisão a tomar. Era um turbilhão de pensamentos naquelas cabeças.
Na manhã seguinte, início de semana, numa pausa para café no hospital, Pedro conversava com João, um colega e amigo, enfermeiro. Este notou no semblante carregado do amigo e tentava animá-lo por diversas formas, mas tornava-se numa tarefa difícil:
- Pedro, assim não vai dar. Tens de reagir, afinal, queres ou não queres casar com aquele bombom que é a Camila?
- Não sei João. Estou confuso, com receio de não estar a fazer a coisa certa. Eu não te contei tudo, mas agora também não há tempo para entrar em pormenores…
- Ah…aí tem coisa afinal? Não me digas que é outra moça? Espera…traíste a tua noiva e agora estás assim, vai e não vai?
- Mais ou menos isso, meu amigo. Beijei outra mulher e aquele beijo não me sai do pensamento, é como que se estivesse permanentemente a sentir os seus lábios nos meus, é uma loucura.
- Essa é demais! Mas quem é ela? Alguém aqui do hospital? Uma doente tua?
- Antes fosse…João, beijei a mãe da Camila. – O enfermeiro ficou de boca aberta. – Isso mesmo, beijei a minha futura sogra e o pior é que gostei e adorava repetir.
- Estás a brincar, só podes! Bem…deu a minha hora, almoçamos e contas-me tudo. Estás a precisar de apoio, meu caro doutor! Logo tu, médico do coração, quero ver como vais tratar agora desse problema emocional.
- Não brinques João! A verdade é que está a tornar-se num grave problema emocional…
Só depois das duas da tarde eles conseguiram almoçar e Pedro contou tudo ao amigo.
Passaram-se alguns dias. A meio da semana, num fim de tarde ameno, Simone saía da casa de apoio aos idosos, finalizando mais uma visita, no seu descapotável e pensou em tomar uma atitude. Estava decidida a procurar o futuro genro e fê-lo de imediato. Chegou e tocou à campainha, indo sem pré-aviso. Uma senhora, muito recatada e elegante, abriu a porta:
- Boa tarde, pois não?
- Olá, boa tarde…gostaria de falar com o Pedro, não sei se está em casa? – Perguntou ela, meio sem jeito, pois não esperava. A senhora chamou pelo médico:
- Pedro, filho, tens visita. Entre por favor, sou Augusta, a mãe do Pedro. A senhora é?
Nesse instante surgiu Pedro, com um pires contendo frutos secos:
- Simone? – Tanta que foi a surpresa, que quase derrubava o pires. – Está tudo bem?
- Sim, está. Queria falar contigo, mas podemos deixar para outro dia, não sabia que estavas com a tua mãe e não quero atrapalhar. – Logo a senhora:
- De modo algum! Tinha mesmo de dar uma saída e vou deixá-los a sós.
- Obrigado, mãe. É a Simone, a mãe da minha noiva. – E deram um beijo no rosto. Augusta retirou-se para que os dois conversassem melhor a sós. Simone sorriu e não escondia o nervosismo. O que estaria ali para acontecer?
CAPÍTULO 18 (30/03/2026)
- Nunca estive tão certa de uma decisão, como agora. – Admitiu Simone, secando uma pequena lágrima que escapava do canto do olho.
- Está certo, não vou criticar. Estarei do teu lado. Sabes que a Camila não vai aceitar de bom agrado, para o Simão, tanto se lhe dá, mas a minha irmã tem uma postura mais tradicional, mais voltada para o casamento e a família, sabes como é mãe.
- Com a tua irmã posso eu bem. Já com o teu pai, é facto que o António não vai aceitar, vai espernear, ameaçar, sei lá mais o quê! Terei de enfrentar a fera e lutar por aquilo que me deixará bem e em paz comigo mesma. Já não aguento filha. Ainda sou nova, não quero passar o resto da minha vida ao lado de um homem só por afeto, amizade e agradecimento. Quero emoção, quero sedução, paixão. Quero viver ao lado de um homem e me sentir apaixonada, não como estar ao lado de um irmão, percebes?
- Percebo minha mãe! Vais conseguir, tem calma, não deixes que essa ansiedade te domine e te leve. Continua firme nesse propósito.
Entretanto, na casa do jovem médico, o ambiente era agora de relaxamento, passada a euforia. Camila estava feliz, sorridente, uma expressão que parecia de realização pessoal, como se tivesse conseguido alcançar algum objetivo. Pedro estava exausto:
- Poças menina, que fera! Tiraste-me o fôlego!
- Eu fera? Deixa-me rir. Tu é que és um touro! Se foi assim tão bom, por que motivo não o praticamos mais? Ai Pedro, a vida é bela!
- Muito bela, quando a sabemos viver. Vem daí, vamos tomar um duche. Mas é para te comportares bem, já estamos nisto há mais de duas horas. – Lembrou ele, exausto. Camila sorriu.
Vivia e Vasco foram deixar a filha no aeroporto, Anabela estava então de regresso a Madrid. Levava consigo alguns mimos dos pais, mas também uma mente mais leve, uma cabeça mais decidida e resolvida. Sentiu que o reencontro com Simão, teria sido determinante e proveitoso. A amizade tinha tudo para durar e as recordações de um amor do passado, prontas para serem guardadas lá no fundo do baú.
Chegou a noite. A hora do jantar em família.
A meio da refeição, Camila decidiu dar uma novidade à família, que quase levou Simone a engasgar-se:
- Pai, mãe, hoje estive com o Pedro e juntos decidimos que vamos casar. E o enlace será em um mês, consoante as vagas na igreja e no cartório.
- Mas já? Um mês? - Perguntou a mãe. – Estão mesmo decididos a casar? Não é muito cedo? Não sei, estou só a questionar.
- Se nos amamos, se a paixão rompe nos nossos corpos, se queremos estar juntos, não vejo motivo para adiar. Ele já tem aquele belo apartamento, temos as nossas profissões, que mais? Ah…eu hoje disse-lhe que quero um filho para breve, aliás, quero vários!
António felicitou a filha, os irmãos ficaram em silêncio. Simone sorriu, deixando para si todo e qualquer juízo acerca daquela decisão do jovem casal. Afinal, a filha estava certa. Trancou-se no quarto, chorando agarrada ao travesseiro. Um misto de culpa e paixão que tudo lhe invadia. Pedro estava sentado no sofá da sua casa, avaliando a decisão…
CAPÍTULO 17 (27/03/2026)
Surpreso com a atitude atrevida e inesperada da noiva, que decidiu seduzir o rapaz, lançar cartas poderosíssimas e para tal, com um certo toque verosímil, despiu-se de todos os tabus e a roupa também, ficando apenas com a interior, uma fina lingerie em pura seda, com acabamento numa delicada renda. Pedro arregalou os olhos e pousou as chávenas na mesa:
- Camila? Mas…por que motivo?
- Por querer estar mais à vontade com o meu noivo, o meu homem. Não vamos casar? Não criámos já uma intimidade entre ambos? Ah Pedro, estou louca por ti e louca para ser possuída, que me devastes inteira como um desbravador mata adentro.
- Ai Camila, és louca. – E aproximou-se mais, apreciando cada detalhe do jovem e belo corpo da moça, segurando firme e delicadamente com a palma das mãos tremulas, cada um dos seios empinados.
- Quero tanto Pedro. Vem…
Os dois envolveram-se arduamente e o jovem médico deitou-a delicadamente sobre o sofá e debruçou-se. Aquele momento, apesar de estranho, até correu bem. E foi um pouco estranho, pois a todo o instante, Pedro via a imagem de Simone no lugar da noiva. O olhar terno, os lábios macios e carnudos, a cara delicada e rosada, tudo lhe lembrava Simone e isso fazia com quem o desejo aumentasse e perdurasse.
Simone estava em casa sentindo-se entediada e resolveu algo surpreendente. A filha Vitória não arredou pé:
- Vais andar de carro agora, mãe?
- Sim, ora essa! Então ganhei o carro ontem, está uma linda tarde de domingo e não deveria? Vamos filha, vem comigo.
As duas entraram no descapotável e rumo sem destino. Pela marginal escutavam músicas em alto som e deixavam os cabelos esvoaçarem ao vento. Vitória ria com vontade e apreciava aquele lado destemido e divertido da mãe. Uma hora depois, uma pausa na condução para uma água aromatizada numa esplanada em Paço de Arcos, sempre olhando o mar azul e até bem calmo naquela tarde. Simone precisava de dizer algo à filha:
- Tomei uma decisão Vitória e desvendo-a em primeira mão, contigo, pois sempre foste a mais calma, a mais ajuizada e compreensível.
- Credo mãe, até me assustas! O que foi? Qual é a decisão?
- Pensei e repensei e também não é no imediato, não vai ser já, até porque essas coisas precisam de calma e amadurecimento. Bem sabes que o meu casamento já passou da hora, já só é amizade, hábito, rotina e não quero isso para a minha vida.
- Não amas mais o pai?
- Claro que amo, filha! Mas é um outro tipo de amor, com gratidão, com amizade. Afinal é o pai dos meus lindos filhos, foi um bom marido todos estes anos, apesar de tudo. Mas irei pedir o divórcio. Não dá mais para continuar como está.
- O divórcio? Estás ciente disso mamã? – Perguntou a filha, acariciando a mãe nas mãos...
CAPÍTULO 16 (25/03/2026)
- Não, nada. Está tudo bem. – Respondeu, mas sem olhar a filha olhos nos olhos. Claro que Camila, astuta e perspicaz, apercebeu-se que algo não estava bem, ou que não estava como habitualmente e não quis insistir mais. Foi para junto da piscina tomar um pouco de sol e aproveitou para fazer um daqueles seus telefonemas secretos, relatando os acontecimentos da noite anterior e que achou Pedro um pouco nervoso e distante.
A secretária de António, Paloma, resolveu ir fazer uma caminhada em Belém, tendo o rio Tejo como pano de fundo. Na sua companhia estava o filho, Rodrigo. Conversavam sobre a empresa, sempre assuntos de trabalho que não se largam e o motivo pelo qual a mãe achava que o jovem vivia muito fechado em casa, quase sem amigos, para já não falar no resto:
- Nem uma namorada Rodrigo? Não podes continuar assim, tens de aproveitar a vida, a tua jovialidade.
- Mãe, de novo com esse assunto? Estou bem assim, sinto-me bem, o Dr. António está muito contente comigo lá na empresa e quando tiver de aparecer uma namorada, isso irá acontecer de forma natural.
- Ah filho, mas não acredito que não penses nisso. És tão bonito filho e quantas vezes te apanho ao telefone, às vezes até parece que estás com segredos para a tua mãe! Sim, estando bem na empresa e em franca ascensão é muito bom. O teu falecido pai sempre foi um querido pelo Dr. António e muito bem visto pelos colegas e pelo mundo empresarial. Deixou fama e a sua melhor marca serás tu, meu filho, o meu orgulho! – Os dois abraçaram-se continuando a caminhada. Por algumas vezes, Rodrigo beijou a mãe na testa e na cabeça.
O fim de tarde de domingo chegou.
Camila teria telefonado algumas vezes para o noivo, sem sucesso e resolveu fazer uma investida clássica e aparecer de surpresa no apartamento do rapaz. Pedro abriu a porta e estranhou:
- Camila? Aconteceu alguma coisa?
- Não. Simplesmente estou a ligar para o meu noivo desde as onze horas da manhã e até agora nada, fiquei preocupada. Ontem na festa, nem sequer tomaste quase nada, portanto, de ressaca não estás. O que se passa Pedro Guerra?
- Estou zen, muito na minha, hoje é mesmo daqueles dias que nem sequer quis olhar para o telemóvel e com receio que tocasse a chamarem-me para alguma emergência. É daqueles dias que gostaria de estar comigo, entendes?
- Sim, entendo. Se é assim, vou-me embora. – E quando virou as costas para o rapaz, ele puxou-a pelo braço, dando-lhe um ardente beijo:
- Não vais nada, fica aqui comigo!
- Hum Pedro, seu galã. Senti saudades. – E continuaram naquela sessão de beijos na boca. Pedro foi preparar uma limonada para ambos e quando voltou, ficou muito surpreso com o que os seus olhos vislumbravam...
CAPÍTULO 15 (23/03/2026)
Vivia abraçou-se à amiga, limpou-lhe as lágrimas que corriam pelo rosto abaixo e pedia calma e concentração. Simone estava a sentir-se uma pessoa horrível. Lurdes foi ao seu encontro e trouxe-lhe um chá de camomila com umas folhas de hortelã.
Os mais jovens ainda dançaram e aproveitaram a festa até altas horas. Parecia que Simão tentava uma aproximação a Anabela, que se retraiu e resolveu pôr um ponto final naquele jogo de sedução. Antes de deixar a mansão, afincou-lhe com respeito e astúcia:
- Simão, penso que entre nós já não dá, já é tarde. Foi tanto que eu te amei, mas desfraldaste as minhas expetativas naquela época, preferindo as raparigas atrevidas, ousadas e todas oferecidas. Sim, sou uma moça recatada, quero sentimento, quero uma relação séria e de respeito, mas não para já também, sabes? Estou muito focada na minha profissão, estou em vias de subir de posto e tudo mudará na minha vida.
- Ah pois…ficarás a viver em Madrid para sempre.
- É uma possibilidade. Mas…amigos?
- Amigos. – Deram um forte abraço sem ressentimentos e despediram-se. Pouco depois Pedro também quis ir embora, não esteve muito animado e nem queria dançar. A noiva ficou intrigada mas respeitou a decisão do médico e também se despediram, com um leve beijo nos lábios.
Simão e Vitória conversavam já de madrugada, sentadas no terraço, apreciando o luar. A irmã brincou para o animar:
- Olha mano, se vires uma estrela cadente não apontes, antes, pede um desejo, quem sabe os astros te escutem.
- Já não sei nada Vitória…às vezes parece que eu nem mesmo sei que caminho devo seguir e o que quero de facto. Eu a Anabela, por exemplo, somos passado…
- Claro que sim. Ela tanto que lutou pelo vosso amor, ficou destruída, desiludida, tudo culpa tua. Mas também são jovens, se não for nestas idades que erramos, que tropeçamos, que arriscamos, quando será? Olha para frente e pensa no futuro. Até parece que não tens inúmeras pretendes atrás de ti, tipo, sanguessugas, sempre prontas para sugar o teu sangue, imagine-se. – E riu-se.
- Tens razão minha irmã, não há com o que me preocupar. Simão Colaço, pronto na área como sempre!
Simone não pregava olho. António dormia a seu lado, já perdoado e ressonava. A mulher só pensava e repensava naquele beijo. O momento não lhe abandonava o pensamento e nem ao jovem médico, que olhava as estrelas pela janela do quarto. O mais confortável é que o dia seguinte era domingo e ele estaria de folga, caso não surgisse uma daquelas emergências médicas inadiáveis. Levantou-se e preparou um chá de camomila. O beijo…aquele beijo parecia ainda estar como algo indelével na sua boca, teimosamente a não querer secar.
O domingo estava com muito sol, céu azul, a primavera a dar os ares da sua graça.
Simone tomava o seu café quando surgiu a filha, Camila, alegremente dando um beijo de bom dia e reparou que a mãe teria um semblante preocupado:
- Tudo bem mãe? Pareces distante, preocupada? Aconteceu algo que te desagradou ontem na festa? – As duas olharam-se fixamente, Simone tremeu um pouco e desviou o olhar da filha.
CAPÍTULO 14 (20/03/2026)
Ânimos mais exaltados, emoções mais à flor da pele, as coisas ali prometiam e estava a fazer-se escuro.
Odete apreciava o presente atribuído à irmã, ali na garagem, brilhante como sangue, já que era bem vermelho vivo. Passava as mãos delicadamente, até que se espreguiçou sobre o capô da viatura, quando apareceu o cunhado, pouco espantado com a atitude:
- Parece que adivinhava que estarias aqui, a cobiçar o carro da tua irmã.
- António? Que surpresa digo eu. Que belo presente, que desespero! Sabes que este poderia ser um presente a mim atribuído, não tivessem as coisas corrido da forma como correram.
- Não percebi…
- Percebeste sim, António. – E aproximou-se mais, envolvendo as mãos à volta do seu pescoço. – Se tivéssemos feito à bela vontade ao meu pai, hoje estaríamos juntos e felizes.
- Não tenho tanta certeza assim. A Simone pode até ter um feitio especial, mas olha que tu és danada como o demónio.
- Credo! Acesa e quente como o fogo, isso sim! Engraçado, o meu Plácido é assim como tu, tímido, recatado, envergonhado, mas por dentro, tem uma brasa pronta a explodir. Aposto que comigo, isso funcionava direitinho, sempre a pique!
- Afasta-te Odete, não sejas tola. Nem sei a que te referes.
- Ai não? – E sem vergonha, apalpou-lhe com delicadeza e vontade, a zona entre as pernas. O homem pareceu chegar à lua em um minuto. Os dois não resistiram e deram um beijo louco. Aquele beijo levou-os mais de vinte anos atrás. Jovens amantes e apaixonados, com planos, sonhos, tudo para uma vida a dois, que na realidade não se encaminhou para um final feliz, apesar do amor feliz.
Na sala da mansão, as amigas sentaram-se no sofá. Alguns convidados já tinham ido embora, restavam praticamente a malta mais jovem, mais afoita, com ganas de ainda dançar, cantar e beber muito.
- Conta-me tudo Simone. Afinal o que se sucedeu neste teu dia tão especial?
- Põe especial nisso. Aconteceu assim do nada, amiga. Beijámo-nos.
- Mas quem se beijou? Estás nervosa, acalma-te e conta-me tudo. Beijaste quem, Simone? – Parecia mesmo que Vivia aguardava por uma confirmação óbvia, por mais absurda que fosse. Simone declarou:
- Eu e o Pedro. Foi um beijo na boca…um lindo beijo. Eu beijei o noivo da minha filha.
- Como é que isso aconteceu? Estavam bêbedos? Pode ser essa a razão!
- Bem sóbrios e cheios de vontade. Ai amiga, deixa-me ficar com remorsos agora, deixa-me sentir culpa, raiva e ainda assim, sentir desejo. Eu beijei aquele rapaz, um miúdo.
- Sim, um miúdo. Com idade suficiente para ser teu filho, mas é horrível já saber-se que é o noivo da tua filha. Como vais encará-lo daqui por diante?
- Credo Vivia! Eu sei lá! Só sei que neste momento não consigo. Quero fugir! – E começou a chorar emocionada.
CAPÍTULO 13 (18/03/2026) - Aquele beijo!
Lurdes dirigiu-se então para o interior da casa.
Pedro entrou pé ante pé na cozinha, chamando por Lurdes, mas para sua surpresa, com quem deu de caras, foi com Simone, que saía da cozinha:
- Pedro? Tudo bem? Aconteceu alguma coisa? Que sangue é esse?
- Ah, apenas um pequeno corte. Parti uma taça e ainda tentei juntar os cacos, o que dá sempre mau resultado, pois cortamo-nos sempre.
- Deixa ver. Está a doer? – Delicadamente viu o corte e notou que era pequeno. – Ai meu Deus Pedro!
- O que foi? É assim tão profundo?
- Claro que não! – E deu uma risada. – É um corte muito superficial, mas deve estar a arder. Vamos já tratar disso. Vou buscar ali a caixa de primeiros socorros, sei onde a Lurdes a guarda. – Pouco depois já estava a tratar do ferimento, desinfetando primeiro. Ardeu e o rapaz encolheu-se um pouco.
- Arde? O que arde cura.
- Eu sei…mas arde!
- O menino até é médico, mas é homem. Vocês homens são tão mariquinhas com estas coisas! – Depressa tratou do corte e ficou ótimo o curativo, com um penso. De mãos encostadas uma na outra, os olhares travessos e mais próximos, o odor das bocas mais próximas, tudo parecia irresistível. Irresistível e sem pensar em mais nada, foi aquele beijo na boca que aconteceu de imediato, parecia brotar do ar, como que se estivesse uma áurea a envolvê-los. Simone e Pedro beijaram-se com ganas e foram descobertos por Lurdes, que apareceu na cozinha, mas nem fez barulho e voltou a sair. Foi para os arrumos conter a emoção, a surpresa e a respiração, enquanto ouvia o casal:
- Desculpe Simone, eu…
- Não! Tudo bem Pedro, eu é que…bem, vamos voltar para a festa e esquecer isto.
- Sim, claro. Agradeço o curativo, foi muito atenciosa.
Pedro retirou-se primeiro e depois Simone. No jardim, Camila estava curiosa com a ausência do noivo:
- Amor, o que aconteceu? Magoaste-te? Estava à tua procura.
- Está tudo bem, apenas um corte num vidro de uma taça que quebrei. Vamos, preciso de uma nova bebida! – E deram um leve beijo nos lábios.
Simone foi ao encontro de Vivia e estava meio apavorada e nervosa:
- Vivia, traz-me uma bebida, algo forte, por favor.
- Mas estás bem? Espera um pouco. – E fez sinal para o empregado trazer uma bebida. – Vais contar-me o que aconteceu?
- Vou…mas depois…preciso de beber para talvez esquecer a loucura que acabou de acontecer comigo. – E tomou num só gole, toda a bebida da taça. Vivia espantou-se.
Continua...
CAPÍTULO 12 (16/03/2026)
Simão teceu longos elogios à jovem, antiga namorada. Parece que agora a via com outros olhos, com um olhar mais terno, mais atento, de mais cobiça e paixão. Anabela derretia-se, achava muita graça aos elogios e ao jeito de sedução do jovem, que se esforçava para marcar a sua presença.
Camila e Pedro chegaram, de mãos dadas, dando risadas e beijos por todos e para todo o lado. Lurdes supervisionava tudo, cada passo, cada detalhe da empresa de catering, a sua maior preocupação. Vivia e Simone conversavam, trocavam impressões de algum assunto secreto, talvez, até serem abordadas por Odete, sempre um passo adiante, com muito sentido de humor e ironia à mistura:
- Olhem as duas cobrinhas…o que estão a tramar desta vez, aqui segredando?
- Ai Odete…não somos cobrinhas, apenas cúmplices, pois sabem muito bem, que com a tua partida, foi a Vivia que me apoiou, que me amparou, que me socorreu nas horas mais difíceis. – Lembrou Simone.
- Sim, pobre Vivia, gabo-te a coragem , a minha irmã não é fácil! – E gargalhou voltando-lhes as costas.
- Não podemos ligar Vivia, a Odete sempre foi assim…
- Divertida.
- Não. Debochada mesmo e às vezes inconveniente, mas é a única irmã que tenho!
E pouco depois António foi falar ao microfone do pequeno palco para anunciar que eram seis horas da tarde, uma temperatura amena e muito agradável e que o bolo da aniversariante estava a chegar e os parabéns tinham de ser cantados! Um forte aplauso foi acústico nos convidados muito alegres. Pedro e Simone trocaram uns olhares por breves instantes, aliás, volta e meia, essa troca secreta de olhares era uma realidade. Uma espécie de saber quando e quem estava a olhar. O bolo gigante de aniversário chegou ao centro do jardim e todos começaram a contar. Duas velas com os números 5 e 0 ornamentavam o bolo e no final, um pequeno fogo de artifício de uma terceira vela no centro. Todos aplaudiram e António abraçou-se à esposa, beijando-a:
- Parabéns, meu amor.
- Obrigada António, por tudo. Está tudo maravilhoso. – E repetiram o beijo que parecia incomodar Pedro, que desviou o olhar. Entretanto, Vivia:
- Amiga, o descapotável vermelho é um assombro! Tu és danada, mesmo zangada com o marido e ele ainda te oferece uma bomba daquelas. Como é possível?
- Quanto mais lhe bato, mais ele gosta de mim! – Declarou rindo. Entretanto serviu as primeiras fatias, ora para o esposo e para os filhos e futuro genro e depois deixou essa tarefa para a empresa contratada. Passados uns vinte minutos foi até casa.
Entretanto Pedro e Simão conversavam amiúde, quando o médico tropeçou e sem querer deixou cair a taça com o champanhe, quebrando-se em mil pedaços. Ainda tentou apanhar os cacos de vidro maiores, mas desistiu após fazer um pequeno corte na mão. Simão sugeriu que fosse até à cozinha e pedisse ajuda a Lurdes, que certamente teria algo para estancar o sangue e fazer-lhe um pequeno curativo. O médico assim fez. Pouco depois apareceu Lurdes e Simão relatou o acontecido e pediu que fosse ver do rapaz para o ajudar.
CAPÍTULO 11 (13/03/2026)
- Vocês são danadas! E nada sei do vosso pai. – Entretanto surgiu Simão que se juntou ao abraço.
- Ao que sabemos, o pai saiu para tratar do teu presente, pelo menos, foi o que nos adiantou. – Aclarou Camila.
- Mas é assim algo tão de especial? Estava a contar que fosse uma viagem, um fim-de-semana, qualquer coisa do género. É que o vosso pai está a necessitar de se redimir e ele sempre foi assim um…como é que eu posso dizer? Um touro. Agora está mais para um bode velho. – E deu uma gargalhada. Odete ainda escutou a última parte e saudou a irmã:
- Viva, parabéns Simone! Que contes muitos e muitos e eu a vê-los, é claro! Que família linda, que gente agradável! – Elogiou. Sentaram-se à mesa para tomar o Pequeno almoço. Não tinha passado meia hora e ouviram uma buzina insistente, vindo da rua. Espantados e curiosos, foram ver o que se passava. Simone ficou de boca aberta, era o seu presente de aniversário: António oferecia-lhe um automóvel vermelho, descapotável, topo de gama, envolto num enorme laço de aniversário, contendo as palavras mágicas "feliz aniversário meu Amor"!
- Vem vê-lo de perto, meu amor. É teu, vermelho como sempre sonhaste!
- António! Mas…é lindo! Oh meu Deus! – Simone entrou no veículo e ainda o experimentou um pouco, apesar das pernas bambas com tanta que era a emoção. Deu um demorado beijo na boca do marido, em sinal de felicidade e agradecimento. Um pouco à parte, Odete segredou-lhe ao ouvido:
- Grande tacada de mestre António! Muito bem! Assim reconquistas a mulherzinha de novo.
- Eu sei muito bem como ter a Simone de volta nos meus braços.
- Vamos despacharmo-nos, o tempo urge, daqui a pouco são cinco horas da tarde e os convidados começam a chegar. – Lembrou a aniversariante, radiante. – O teu noivo sempre vai Camila?
- Sim, sim minha mãe. Hoje o plantão dele termina mais cedo e vai a casa se preparar e depois virá para a festa.
- Ótimo! António…seu eterno sedutor. Muito obrigada, mesmo!
- Gostaste, meu amor?
- Então não? Aliás, amei! Só mesmo tu. – E entraram em casa abraçados. As filhas olharam uma para a outra e apreciavam o momento de felicidade dos pais.
A hora dos convidados chegarem, aconteceu. Entre os primeiros, Vivia, Vasco e a filha. Entre abraços, beijinhos e entrega de lembranças, Anabela e Simão ficaram cara a cara:
- Olá, Simão.
- Olá, Anabela. Estás diferente, muito bonita!
- Obrigada! – E ficou corada com o elogio. – Tu também estás bem, aí todo musculado. Como tem sido a vida? – Os dois pareciam muito interessados em saber mais um do outro. Pegaram em duas bebidas de limão e foram para perto da piscina conversar…
No próx capítulo, a não perder: a grande festa de aniversário. Tantos acontecimentos inesperados...
CAPÍTULO 10 (11/03/2026)
Mas quem conseguia dormir com toda aquela alegria e azáfama? Só mesmo as filhas já dormiam. Simão achou muita piada à tia e também ficou ali escutando as conversas, como sempre, relembrando o passado, o mais antigo e o recente. Simão interveio:
- Então o primo? Não veio por que motivo?
- Trabalho, meu querido. O Plácido é muito empenhado no que faz. Ele dá formação na área das novas tecnologias e da IA, está em viagem pelas américas! Mas sugeriu que a mãe se divertisse, com peso e medida.
- Pois, pois. O meu sobrinho sabe muito bem a mãe que tem. E estás cada vez mais jovial Odete! Nem pareces mais velha do que eu cinco anos. – E deu uma risada.
- És muito simpática, espero que não tenhas dito com ironia. Faço tudo o que me dá na telha e levo a vida a sorrir. O passado ficou lá trás e é para esquecer. Aposentei-me mais cedo, mas procuro aproveitar ao máximo a vida e fechar-me em casa a ver TV ou a fazer tricô, não é mesmo para mim.
Simão resolveu ir dormir. Simone foi buscar um chá de camomila para tomarem antes de dormir. Odete voltou-se para o cunhado:
- Estás bem? Pareces cansado, em baixo.
- Sempre muito curiosa, Odete. Sim, estou cansado. Os negócios não dão tréguas e a tua irmã não é fácil, sabes bem. Ó bichinha difícil!
- Que novidade. Casasses comigo que a tua vida tinha sido outra. Motivos não te faltaram! – Nisso entrou Simone, com a bandeja e as chávenas.
- Que motivos não lhe faltaram? Continua lá, Odete minha boa irmã.
- Simone, não lhe faltaram motivos, oportunidades, para ter escolhido casar-se contigo ou comigo. O António fez a sua escolha e traçou o seu destino. – O homem sentiu-se atrapalhado e tomou o chá num gole só e subiu para o quarto.
- Odete, és terrível! Já lá vão tantos anos.
- Eu sei mana. Mas o papá fazia muito gosto que o António se casasse comigo, mas ele preferia a mais nova. Rendeu-se à tua beleza, à tua graciosidade e foi o que aconteceu…
- Não vamos remoer o passado, não foi o que disseste há pouco? O que lá vai, lá vai. Também casaste com o Conde e tens um filho lindo e quase perfeito! São as voltas da vida. Tornaste-te até uma viúva alegre! – E deram uma gargalhada brindando com o chá.
A conversa entre as duas irmãs, para matar saudades, ainda durou pelo menos, duas horas. Mas dormir seria essencial.
O sábado amanheceu, solarengo como previsto, com toda a passarada a cantarolar e a voar de galho em galho nas árvores do jardim. As empresas contratadas já estavam no terreno e prontas para dar o seu melhor.
Simone levantou-se e estranhou a ausência do marido e questionou as filhas, que estavam à mesa, pelo paradeiro do pai. Ficaram em silêncio trocando olhares. A aniversariante ficou intrigada. Num impulso, as duas saltaram a abraçar e a beijar a mãe, cantando alegremente a melodia dos parabéns a você. Simone ficou emocionada.
(continua no próx. capítulo)
CAPÍTULO 9 (09/03/2026)
Uma vez mais, a secretária garantiu que estava tudo pronto, sem margem para falhas.
A noite daquela sexta-feira chegou, a galope. Corria uma aragem fria, parecia que a temperatura tinha descido, mas a previsão para o sábado de festa, era de um dia primaveril.
Vivia recebia a filha Anabela com um forte abraço. Há algum tempo que não se viam, a gestora trouxe presentes para os pais e não se esqueceu da aniversariante. Enquanto jantavam, punham a conversa em dia e a dada altura, a moça foi a questionar:
- E o Simão? Já assentou ou continua o mesmo?
- Não sei o que é o mesmo, filha. Mas continua solteiro e parece muito empenhado na empresa com o pai. Faz muito desporto, mas não se vê assim com nenhuma menina fixa. Amanhã vão poder estar juntos.
- Sim, o Simão tem se revelado muito útil na empresa, um promissor gestor dos negócios da família. – Afiançou Vasco, terminando de jantar e indo fumar um pouco do charuto cubano, presente da filha.
- E tu minha menina? Algum namorado madrileno?
- Olham que eles são bem guapos, mãe, muito jeitosos sim! Mas estou solteira, numa de "logo se vê o que aparece". Não me fecho a nada.
- Ah, mas isso é bom! Adorei o vestido que me trouxeste, amanhã estarei deslumbrante.
- Essa foi a intenção! – Riram e terminaram também de jantar.
Simone e a família também já tinham terminado, relaxavam momentaneamente no sofá, tomando café e um digestivo. Lurdes arrumava tudo. Camila subiu para o quarto, para descansar e Simão entretinha-se a ver TV. Foi quando tocaram à campainha, de forma insistente, que não deu tempo de Lurdes tomar a iniciativa de abrir e foi Simone:
- Credo, quem será? Não me digam que é alguma coisa de última hora para amanhã? Já vai… - E além do toque à campainha, também batidas insistentes na porta. Para seu enorme espanto a visita era realmente inesperada.
- Olá família, boa noite!
- Odete? És tu mesma a esta hora, assim, sem avisar?
- Em carne e osso, minha irmã! – António logo se levantou do sofá, atarantado. Era a cunhada. Odete entrou de rompante, falando em voz alta como sempre, rindo muito e abraçando-se à irmã. – Que saudades Simone!
- Odete, sua maluca! – E permaneciam abraçadas com fervor, rindo e saracoteando para um lado e para o outro. Logo Odete, fixando o cunhado nos olhos:
- António! Estás velho homem, magro! Ai, ai, a Simone anda a chupar-te até ao tutano.
- Ah, antes fosse! Como estás?
- Que piada. Ele anda muito engraçado ultimamente. Mas conta-me, vieste porquê?
- Ora porque será, Simone? Vim passar uma temporada convosco e marcando presença no teu aniversário. Mas alguma vez eu faltaria à festa dos teus cinquenta anos? Nem morta! - E deu uma gargalhada...
CAPÍTULO 8 (06/03/2026)
Os dias daquela semana que antecederam o evento de aniversário, foram para Simone e para Vitória, a filha que mais apoio lhe deu, de afobação, correria, entusiasmo. Tudo teria de brilhar naquele sábado de festa. Foram contratadas empresas para quase tudo, desde a decoração dos jardins, aos músicos, ao palco, à comida, passando até pelas roupas. Simone queria mesmo festejar em grande os seus 50 anos de vida, de uma caminhada nem sempre fácil, aliás, todo o caminho tem pedras, umas mais pequenas, outras nem tanto, o segredo está em caminharmos com os pés bem assentes e superar, em cada dia, cada obstáculo, para no final, sairmos gloriosos.
Na véspera, ela e a amiga conversavam num bar, depois de uma sessão de massagens e tratamento de pele:
- E como te sentes amiga, além de saberes que estás a poucas horas de entrares na casa dos cinquenta, de celebrares meio século de vida?
- Tu brincas, Vivia, faltam-te dois anos para também lá chegares! – Lembrou. – É uma grande responsabilidade completar cinquenta anos e um privilégio, sem dúvida. Na atual sociedade em que vivemos, somos a encarar esta data de cinquenta anos, algo simbólico e uma espécie de marco, como se estivéssemos a meio da vida, o que não corresponde exatamente à verdade.
- Como não Simone?
- Ora Vivia…quem garante que viverei mais cinquenta anos? Nada disso! Mais vinte ou trinta, talvez, mas sempre viverei menos do que aquilo que já vivi, é quase certo! Quando vivemos até aos cinquenta, temos de encarar uma certeza, até para não ficarmos com as expetativas frustradas – resta-nos menos tempo para viver. Então há que aproveitar a vida, viver a vida!
- Tens toda a razão amiga. Mas com o passar dos anos, é inevitável não pensarmos na morte. Para lá caminhamos a passos largos.
- É verdade! Quando somos jovens, não pensamos nisso, queremos viver intensamente, sem pensar no depois e agora, queremos viver tudo o que não vivemos, aproveitar ao máximo, pois sabemos que a qualquer momento entramos por aquela porta, para não mais voltar.
- É a vida. Olha, a minha Anabela chega hoje de Madrid, ao final do dia. Nem te tinha dito. Naturalmente que a minha filha não ia faltar ao teu aniversário.
- Que bom! Sabes amiga, lamento muito o meu Simão não corresponder com o mesmo sentimento. A Anabela continua apaixonada pelo meu filho?
- Ai Simone, espero que não! O teu rapaz é um mulherengo, a minha Anabela sofreu muito e ficou muito dececionada. A oportunidade de ir trabalhar e viver em Espanha, foi muito bom. Espero sinceramente que tenha ajudado a miúda a esquecer o teu rapaz.
As duas não demoraram muito mais no estabelecimento e Simone teve de correr para casa para ultimar uns preparativos.
António questionou a secretária acerca do presente da esposa, na expetativa de tudo estar como planeado:
- Tudo certo com o presente? É muito importante Paloma, tem de dar tudo certo!
NOS PRÓXIMOS CAPÍTULOS »»»»»»» A Grande festa dos 50 anos de Simone, ninguém vai querer perder!
CAPÍTULO 7 ( 03/03/2026)
Nessa noite o jantar foi em família. Simone sentou-se à mesa com os três filhos. O marido não tinha chegado ainda. Não é que fosse um momento raro, mas cada vez mais, tornava-se difícil estarem reunidos para jantar. A ementa confecionada pela Lurdes, foi bacalhau espiritual acompanhado com broa de milho doce, só do seu jeito. Entre risadas e assuntos mais sérios, chegou o momento de uma saudade antecipada ou sem sentido, a possibilidade dos três se casarem e não ser tão frequente aquele momento em família:
- Mãe! Eu casarei e não será algo muito no futuro. Tenho estado em conversações com o Pedro, até à data nada! – Revelou Camila dando uma risada. Logo Vitória:
- Não olhes para mim mãe. Eu não pretendo casar nos próximos vinte anos, além do mais, nem namorado tenho.
- Isso é o que me preocupa filha! Vejo-te tão sozinha!
- E o que tem isso? – Perguntou Simão, em defesa da irmã. – Sozinhos é que estamos bem.
- Sim filho, logo tu, um dom Juan, um eterno sedutor. Que tencionas estar solteiro sei eu muito bem! Mas prometem que vêm visitar a vossa mãezinha? Eu não quero padecer do mesmo mal daquelas velhinhas que apoio e faço companhia às vezes. Quero estar sempre acompanhada!
- Mãe? Logo tu, uma mulher tão jovem ainda, tão bela e a pensar nisso. E por falar nisso, já decidiste a festa dos teus cinquenta anos?
- Isso mesmo Simão! Festa dos cinquenta anos! Vou dar uma festa de arromba, afinal não fazemos cinquenta anos todos os dias. Camila, o Pedro está convidado. Quero os jardins da casa cheios de gente, música, bebida, muita alegria. Vou conversar com o vosso pai acerca disso. – E nesse preciso momento, entrou António de rompante:
- Conversar comigo sobre o quê?
- O que será pai? A mãe vai dar a festa dos seus cinquenta anos, estamos todos muito animados! – Disse Camila. - Até podemos já fazer um brinde. – Sugeriu.
- Esperem. Deixem-me só ir lavar as mãos e já fazemos o brinde. Simone, meu amor, o aniversário está próximo, fala-me do presente que queres receber!
-Hum…olha-me ele. Está já cheio de segundas intenções, só para me seduzir… - E voltando-se para Lurdes, lembrou. – Calma minha querida, tu só vais supervisionar tudo. Vou contratar uma empresa de catering para confecionar a comida e tratar da garrafeira. Tenho aquela minha amiga, a Carolina, muito compenetrada no negócio e para ela a qualidade está acima de tudo. – Logo António:
- Sim, sim. Quando temos eventos na empresa, não quero outra pessoa a tratar da comida! Então está na altura de tratarmos dos pormenores e pôr a coisa a andar, o que me dizes Simone?
- Ai vocês…tudo bem, já que estamos todos juntos, vamos tratar dos pormenores da festa dos cinquenta anos! – A mulher mostrou-se animada, interessada, mas não escondia um pouco de nervosismo. Afinal, não era uma festa qualquer de aniversário. Aliás, naquela família, uma festa foi sempre uma grande comemoração, uma festividade, algo que deixava sempre uma marca indelével e aquela não seria diferente.
CAPÍTULO 6 (27/02/2026)
Pedro não escondia a admiração que estava a sentir pela futura sogra, também não fazia questão alguma de disfarçar. As palavras, os olhares, os elogios, os sorrisos, tudo saía de forma natural, sem preconceitos, sem ofensas, sem estigmas, sem nada que pudesse incomodar. Para o jovem médico era até como uma espécie de alívio, cada vez que, elogiava Simone. A mulher sentia-se envergonhada às vezes, mas adorava cada elogio, tremia e suava com cada olhar, cada palavra.
- Bem Pedro, logo seremos família! A minha filha sempre falou muito bem deste namorado, do quanto estava feliz e dos planos de formarem uma família. Sabe, a minha Camila teve uma educação rígida, tradicional, talvez até um pouco mais que os outros. Fui mãe muito cedo, inexperiente e contei com o apoio da minha falecida mãe para ajudar na educação. Ai…a dona Filomena era muito rígida na criação, eu que o diga! – E deu uma risada. – Já eu…sempre fui mais liberal, emotiva.
- Sabe Simone…nada do que possa dizer ou que consiga dizer, vai alterar em mim este sentimento…digo, sentimento de admiração. Parece ser uma mulher extraordinária!
- Pedro! Tantos elogios acabo por acreditar e ficar mal-acostumada. Nem o meu marido é tão gentil e vasto nos elogios, aliás, já nem sabia o que era isso há um bom tempo. Mas…acredita que a dona Ivone vai melhorar e voltar para a sua rotina de vida?
- A idade não perdoa. O coração vai enfraquecendo. Mas não é o retrato de todas as pessoas, tenho pacientes com mais de 90 anos e com um coração de uma pessoa de cinquenta! Acredito que é uma questão de genética e estilo de vida! O segredo está no que comemos e no modo como levamos a vida. Temos de ser alegres, otimistas, gostar de rir e de socializar e de fazer o bem. Por isso é que a Simone continua a ser uma bela mulher, aos 50 e esse coração deve estar jovem!
- Tem dias, Pero! Por acaso devo estar na altura de fazer um check-up geral, para ver como estão a funcionar os órgãos e como o coração está a trabalhar.
- Certamente bate com fervor e sempre por bons motivos. – Os dois olharam-se, fixamente por breves instantes e chegou o momento do médico regressar ao trabalho. Despediram-se com um cumprimento leve de mão, mas o rapaz foi mais afoito, atrevido e deu um beijo na face da sogra, que corou e sorriu, como se nada fosse diferente.
Simone teve mais tarde um encontro com a amiga Vivia. Foram tomar um chá e provar de uns biscoitos de gengibre. Simone contou o sucedido, quando a amiga foi bem direta na observação:
- Está tudo bem amiga?
- Sim Vivia, mas porquê a pergunta?
- É que desde que chegaste ao pé de mim, já pronunciaste o nome do teu futuro genro umas dez vezes, fora os elogios e isto e aquilo. O que se passa? Ficaste deslumbrada com o jovem médico, é isso?
- Quem? Eu? Que tontice! Nada de mais. Apenas o rapaz tem sido muito gentil comigo.
- Sei…claro que sim, mas não te esqueças, que é o namorado da tua filha, mais do que isso, é noivo e vão casar em breve. E já agora, como estão as coisas com o António, o teu esposo querido?
- Na mesma. Tentou vir com desculpas, falinhas mansas, mas ainda não me esqueci.
(continua...)
CAPÍTULO 5 (24/02/2026)
Simone dedicava um pouco do seu tempo às causas sociais e naquela tarde destacou-se numa já habitual instituição social de apoio aos idosos em situação de pobreza ou mais desfavorecidos. A responsável pelo espaço e por receber os idosos de dia, para lhes dar apoio emocional, refeições quentes e atividades lúdicas e de distração, sempre agradecia a generosidade de Simone:
- Dona Simone, não tenho palavras. A senhora é uma bem feitora que nunca se esquece de nós, todos os meses aqui está.
- Oh Leonor, não agradeça. Faço porque gosto e porque me sinto nessa obrigação, é meu dever, apoiar os outros. Mas já sabe, faça como lhe digo, não divulgue nada do que dou ou daquilo que faço, para o mundo lá fora. Ninguém precisa de saber.
- Naturalmente. Faremos como habitual. O bem faz-se em silêncio, o resto é teatro!
- Isso mesmo. – Entretanto uma idosa sentiu-se mal e a ajudante do centro veio de imediato a avisar Leonor do sucedido. Uns momentos tensos e de aflição geraram-se ali e Leonor resolveu chamar uma ambulância. Seria melhor encaminhar a senhora para o hospital, pois queixava-se de mal-estar geral e forte dor no peito. A ambulância não demorou muito. A senhora foi levada.
Simone ficou impressionada e não quis abandonar a senhora e nem a situação e seguiu a ambulância no seu automóvel.
Na empresa de energias renováveis, terminada a reunião com diretores e engenheiros, António teve a oportunidade de agradecer ao advogado, filho de Paloma, pelo empenho e desempenho na solução com o cliente insatisfeito há algum tempo. Porém, Rodrigo resolvera a situação. Os dois até se reuniram para tratar de um consórcio. As energias renováveis são e serão o futuro, sempre lembrava António, confiante e sorridente.
Simone andava às aranhas no hospital à procura das urgências. Muitas pessoas, muita confusão, uma sala de espera com familiares e amigos de rostos cabisbaixos e desesperados, ansiando por notícias. Em alguns corredores e nas urgências, um caos. Esteve sem saber de nada da senhora, pelo menos por uma hora, até que solicitou informações a uma enfermeira, que foi saber se teria algum médico disponível. Lia umas mensagens no telemóvel, quando o médico a abordou por trás, quase ao pé do ouvido:
- Desculpe, é a familiar da dona Ivone? – Simone voltou-se de imediato e surpreendeu-se.
- Eu? Sou…Pedro? Quero dizer…doutor Pedro Guerra? – Leu no crachá ao peito.
- Simone? Mas…é uma familiar sua? Está tudo bem?
- Bem Pedro…é uma amiga. Não sabia que estava aqui neste hospital.
- Trabalhamos em vários e hoje estou de plantão nas urgências. – E estendeu a mão na expetativa de um cumprimento. Simone correspondeu e ambos sorriram. Pedro deu então notícias. – A dona Ivone não corre perigo, foi um início de um AVC, ficará em observação e provavelmente só amanhã sairá para casa.
- Terei de avisar o centro de dia para avisarem a família, se é que tem alguém. – Lembrou com tristeza e muita dúvida. - Mas obrigada por cuidar da senhora. Chegar a esta idade e ficarmos doentes e depois não termos quem nos dê a mão, quem nos acompanhe, é muito doloroso. – O médico concordou e convidou-a para tomarem um café rápido ali mesmo no bar, numa pausa rápida.
(continua no próx. capítulo)
CAPÍTULO 4 (18/02/2026)
Simone continuou de relações cortadas com o marido, indo dormir para o pequeno quarto de hóspedes. Contudo, António tentou uma aproximação ténue e visitou-a antes de dormir, procurando uma reconciliação. Pediu desculpa pelo sucedido com o comprimido azul, mas Simone mostrou-se ofendida, com agravo:
- Não entendo António! Já não te seduzo? Já não te excitas ao ver o meu corpo desnudo?
- Como não Simone? És uma bela mulher, de corpo escultural, mas acontece que…bem, um homem na minha idade às vezes já perde o fôlego…
- O ânimo, dizes tu. António, tens uma amante? Diz a verdade. É alguma secretária lá da empresa? Sim, porque vira e mexe e o patrão bem-sucedido envolve-se com a secretária que quer subir na vida a todo o custo.
- Não viajes mulher! Não tenho tempo para isso. Mal dou conta do recado aqui em casa, como podes constatar, como ter ainda uma amante? E olha que elas dão trabalho e despesa.
- Sai daqui António, quero dormir. O tempo cura tudo e enquanto não conseguir esquecer este infeliz sucedido, não consigo permitir que me toques. Boa noite. – O esposo retirou-se cabisbaixo e de certa forma até lhe dava razão.
Na manhã seguinte, antes de ir para a empresa, Simão foi para o ginásio. Lá encontrou o amigo Carlos, também a treinar. Entre alguns assuntos, o mais apetecível, sobre as raparigas, veio ao de cima:
- Tens visto a Débora?
- Olha Simão, ontem mesmo esteve aqui com a Matilde. E perguntou por ti. Estão zangados?
- Nem por isso. Às vezes sinto que devo me afastar um pouco, elas parecem abutres em cima de mim.
- Por que será? Ficam loucas com o playboy! Dá outra desculpa Simão, tu adoras a Débora.
- Achas mesmo? Impressão tua. Até te digo mais, acho que vou dar uma olhadela na Matilde, parece-me interessante. – E deram uma risada, continuando a suar na máquina.
António chegou à empresa e a secretária tinha tudo pronto para a reunião, como sempre nada parecia falhar. Entretanto uma questão burocrática com leis, relativamente a um cliente, levou a uma sugestão da mulher:
- António, o meu Rodrigo poderá muito bem tratar dessa questão, enquanto vamos para a reunião.
- Parece-me bem. Esse teu filho é um advogado competente. Pede que se reúna com o cliente e assunto arrumado. – Assim fez Paloma, transmitindo as orientações ao filho.
A meio da manhã, no intervalo de uma e outra consulta, Camila aproveitou para fazer uma ligação telefónica, que não parecia ser para o namorado, pois Pedro estava no meio de consultas. Falou pouco e discretamente. Relatava o jantar da noite anterior e até num certo tom de desdenho...
CAPÍTULO 3 (12/02/2026)
Camila arregalou os olhos e sorriu tentando disfarçar o incómodo. António tossiu e Simone deu uma risada indo ao encontro do rapaz:
- Oh meu rapaz, muito obrigada pela parte que me toca, mas eu sou a mãe. – E estendeu a mão para um cumprimento. Pedro respondeu e à futura cunhada deu dois beijos na face. Camila logo quis apressar a ida para a mesa:
- Bem família, vamos sentarmo-nos ao redor da mesa para jantar? Este momento é único e tem a sua raridade. Daí ter sido uma marcação em cima da hora, ossos do ofício.
- Pois claro, já não bastava uma super ocupada médica veterinária e agora um médico cardiologista… - Comentou Simone em tom de brincadeira.
- A saúde não tem horas minha mãe. – Lembrou a veterinária. – Bem, mas este soufflé de frango está com uma cara ótima! Ai Lurdes, qual manter a linha diante da tua comida?
- Olhe, para as vezes que a menina come em casa e prova da minha comida, não engorda com toda a certeza.
- Eu hoje quero e vou comer bastante. Estou necessitado de muita proteína e amanhã o ginásio terá de ser duro. – Lembrou Simão. A refeição decorreu com vontade de comer, houve até brinde com vinho tinto e a sobremesa deixou todos enriquecidos e muito satisfeitos.
Já fora da mesa e em estilo volante, foi servido o café, o chá, uns bolos de canela e um digestivo. António ladeou a esposa:
- Estás muito bem disposta, deve ser por causa dos elogios do matuto. Ficaste toda derretida.
- Normal. O meu marido não me elogia há séculos e receber um elogio, de um puto de 30 anos, numa altura destas e na fase que atravesso, caiu como chuva no deserto. Ele tem algo que a ti falta. – António ficou encafifado com aquela parte final e curioso em saber o que lhe faltava e que ao futuro genro, sobressaía.
A conversa decorreu bem animada, risos, lembranças da infância dos filhos, coisas que davam para gargalhar e também deixá-los acanhados. Por fim, Simone quis antever uma nova reunião familiar:
- Família e peço a especial atenção aqui para o nosso Pedro, aguardando que logo, logo, entre para a nossa família, no início de abril darei uma festa para comemorar os meus 50 anos. Quero-vos todos nesta celebração. – Logo Pedro:
- Mas…50 anos? A sério? – António não se conteve e interveio:
- Então meu caro, se namora com a minha filha e ela tem 25 anos, o Simão 29, a minha querida esposa só poderia ter, pelo menos, mais vinte. Faça as contas e não seja tonto.
- Desculpe senhor António, estava a brincar e a tentar ser gentil, não me leve a mal.
- Bem, pai, mãe, acabou. Vamos Pedro? Obrigada pela noite linda! – Agradeceu Camila e tentando acalmar o ambiente antes que o pai pudesse ser inconveniente…
(continua no próx. capítulo)
CAPÍTULO 2 ( 09/02/2026)
Foi Vitória quem avisou o pai da novidade. Mais tarde Camila deu um telefonema rápido a confirmar e pedindo desculpa pela marcação do jantar em cima da hora, mas o momento assim o exigiu e mais valia rapidamente que nunca. Quando António Colaço chegou a casa, o senhor de tudo aquilo, na companhia do filho, Simone estava de costas voltadas e sem vontade de manter qualquer tipo de diálogo. Os filhos é que faziam de leva e traz das mensagens, num momento único, que se tornava até caricato.
- Então a nossa menina quer apresentar-nos o namorado? O que achas Simone?
- Simão, diz ao teu pai, que não acho nada, fiquei surpresa e estou ansiosa por conhecer o namorado da Camila, um bom rapaz, ao que pudemos apurar, afinal médico cardiologista no início de carreira, muito dedicado, profissional.
- Pai, a mãe…
- Cala-te Simão, ouvi perfeitamente. Até quando vais continuar com essa paródia, Simone? – Perguntou, desapertando o nó da gravata com alguma ira.
- Simão, diz ao senhor teu pai, que maior paródia, foi aquela que assisti numa noite destas, sem luar. Diz ao teu pai que não tenciono falar com ele e nem quero…pelo menos até me esquecer do sucedido.
- Pai, a mãe…
- Paródia? Então fiz tudo para te agradar, aliás, faço sempre tudo para te agradar e é assim que me pagas, que reages? – Simone voltou-se e foi até à cozinha. Logo o filho:
- Pai? O que foi que lhe fizeste? Não é normal a mãe estar assim zangada contigo por tanto tempo!
- Simão, meu filho…vem aqui tomar um aperitivo comigo e já te conto. Uma conversa de homem para homem e espero que me entendas e não me julgues!
Logo Simone na cozinha:
- Ai Lurdes, às vezes fico saturada, só me apetece desaparecer! Mais de 30 anos casada com este homem, que me conhece até do avesso e depois ainda toma atitudes, como se fosse um adolescente e não me conhecesse o suficiente. O António consegue me tirar do sério, me desiludir.
- Calma minha senhora! Não existe amor como o vosso, o senhor António é louco na mulher, mas é homem, pronto, não é perfeito e mete os pés pelas mãos.
- Com tantas coisas que me tem feito, quanto mais velho pior está este homem! Vou resumir exatamente a última que ele me armou: vem todo emproado, parecia um galo numa noite destas, nem conseguiu completar a tarefa básica de satisfazer a sua esposa na cama e ainda revelou que tinha tomado viagra! E nem assim conseguiu! Só mesmo comigo. – Lurdes não aguentou e desatou a rir.
- Desculpe, minha senhora. Só mesmo você para me fazer rir de uma coisa dessas!
- Pois é para rir mesmo! Além de não ter conseguido satisfazer a esposa, ainda revelou que usou o comprimido azul. Nem assim fez efeito, eu concluo, que já não o consigo satisfazer. – E colocou as mãos na massa, literalmente, para ajudar a amassar uns pães de alho para a entrada.
Simão ficou de boca aberta com a revelação do pai. Tomou até de imediato a bebida:
- O que foi Simão? Vais condenar-me também?
- Não é isso pai…mas…como é que pode ser possível, nem teres conseguido o auge, mesmo com o viagra? O que se passa? Daí a mãe estar preocupada e revoltada, afinal, o marido nem com o azul lá conseguiu ir! Alguma coisa não está bem e é compreensível que a dona Simone fique alerta.
- Eu sei…nunca me tinha acontecido com a tua mãe. Também a idade não perdoa, vou a caminho dos 60, caramba! E a ansiedade, o stresse, nada ajuda.
- Pai, tens de tratar então dessas causas para não fazeres feio com a mãe, no momento do sexo. Sabes que o sexo não é o mais importante numa relação, mas é o que causa intimidade no casal, relaxamento e prazer.
- Se sei…ai filho, a vida é engraçada. A receber conselhos do próprio filho, sobre sexo, melhor, sobre como agradar a mulher na cama e, no caso, a tua mãe! Um brinde!
Pouco depois, perto das sete e meia da noite, numa noite de início do mês de março, Camila chegava a casa, na companhia do namorado, o doutor Pedro Guerra, para apresentá-lo formalmente à família e numa ocasião aprimorada, num jantar íntimo.
Assim que entraram, Camila apresentou o rapaz ao pai e ao irmão. Pedro mostrava-se um pouco tímido, o que vinha a ser normal. Entretanto chegaram Simone e Vitória, lado a lado. Camila logo fez as restantes apresentações:
- E eis a minha irmã e a minha mãe. – Apontou sorrindo. Pedro teve uma brilhante saída:
- Encantado! Mas…qual das duas é a mãe e a filha? – Perguntou com gracejo.
(continua no próximo capítulo)
" ROMANCE, PAIXÃO & EMOÇÃO" DIA 04 DE FEVEREIRO DE 2026.
CAPÍTULO 1
Simone e a amiga, Vivia Meireles Lourenço, disfrutavam do prazer dos tratamentos de estética e beleza de uma clínica conceituada na capital. Após a sessão de massagens e relaxamento, Simone, desafiou a outra para uns momentos na Sauna, mas não aquele tipo de sauna convencional, nada disso. Uma sauna de infravermelhos.
- A sério, Simone?
- Sim, anda daí Vivia. Depois das massagens, que fazem muito bem ao corpo, pois reduzem a inflamação, uma vez que melhora a circulação e os processos inflamatórios, uma sauna de infravermelhos será ouro sobre azul. Uma luz infravermelha que penetra nos tecidos do corpo.
- Ai…por favor Simone, não me uses essa palavra. Há muito que não sei o que é!
- Ai amiga, eu então nem te falo. Acreditas que o António, veio numa das últimas vezes, à base de viagra? Nem queria acreditar! Viagra para fazer sexo com a mulher? Para mim não dá! Já não tem desejo, é isso?
- O Vasco nem com viagra, anda a leste do paraíso há muito tempo. Simone, será que os nossos maridos têm uma amante e por essa razão não nos desejam mais?
- Nem quero pensar. Estou até de conversas cortadas com ele, nem o posso ver. Daí que esta sauna será bem-vinda. A terapia com sauna de vermelhos, promove a desintoxicação, ajudando o organismo a libertar toxinas armazenadas que podem contribuir para a inflamação. Têm feito imensos estudos em ratos, que revelam resultados promissores em humanos, evitando até tumores. Eu quero experimentar!
- Bem, se não fizeram mal aos ratos, mal não farão às nossas ratinhas. Vamos a isso!
Riram-se e encheram-se de coragem para a sessão de sauna com infravermelhos, uma novidade na cidade. No final, Vivia ainda elogiou admitindo:
- Por isso é que estás com essa pele, essa beleza. Pareces uma jovem de trinta e poucos anos!
- Obrigada, amiga. Mas dentro de um mês, cantam cá os 50!
- Ui, que festa! Que venham eles!
Simone chegou a casa, uma imensa moradia em São Pedro do Estoril, onde estava apenas Vitória, a filha do meio, dos três seus filhos. Camila, a mais nova de 25 anos, era veterinária, com consultório próprio. Simão, o mais velho, quase a completar os 30, trabalha na empresa da família, mulherengo, adora o cultivo do corpo, também da alma, verdade seja dita. Vitória, de facto, era a mais romântica, serena, doce e sonhadora e às vezes distraída demais. A sua paixão sempre foram os livros e sempre um anda consigo debaixo do braço:
- Qual é esse, filha?
- Ah mãe, já te tinha dito. É a história de um ratinho num castelo, um ratinho diferente, que adora cozinhar e se torna amigo da princesa, aliás, por quem nutre uma grande paixão – "A lenda de Despereaux"!
- Só mesmo nesses contos de fadas. Ai se a vida fosse assim, podia ser só de vez em quando, não achas Vitória?
- Mãe? A vida é bela, mesmo muito bela, mas nós é que damos cabo dela!
- Sim, pois. E ser casada com um homem como o vosso pai, é dose. De conto de fadas é que não tem nada! Mas deu-me vocês, meus três filhos lindos, com personalidades fortes, marcantes, decididos. Vocês são tudo para mim, o meu maior tesouro! – E deram um abraço. Pouco depois, pediu licença a empregada da casa, mulher de confiança, antiga, ajudou na criação dos filhos e interpelou-as:
- Meninas, não sei o que se passará, mas a menina Camila, pediu para hoje um jantar especial. Trará o namorado, o tal doutor…
- Ora, que novidade! A Camila quer um jantar para apresentar-nos o namorado? Finalmente vamos conhecer o médico, estava difícil!
- Oh mãe, talvez mesmo por ser médico, conseguiram hoje a oportunidade da reunião e calhou o jantar. Vamos recebê-los com alegria!
- Claramente que sim. Lurdes, capricha nesse jantar e faz aquela sobremesa que a Camila adora, a tarte merengada de limão!
- Está no ponto! Vamos a isso. - Concluiu Lurdes, empolgada.
(Continua, no próximo capítulo)